
FELIPE PINHEIRO trabalha há 7 anos na Petrobrás. Ele pertence a uma nova geração dos trabalhadores petroleiros que apesar de não terem participado da última grande greve em 1995, quando os sindicatos da categoria foram fechados com o embargo dos bens para pagar multas, realizaram no mês de novembro uma greve de 18 dias. A principal reivindicação da categoria era a manutenção dos direitos já conquistas e contra a entrega e privatização da Petrobrás aos empresários.
Luta Popular e Sindical (LPS) - Onde aconteceu a greve aqui em Minas Gerais e quantos dias ficaram parados?
Felipe Pinheiro – Ficamos 18 dias em greve aqui em Minas, tivemos mobilização em três locais: na Regape, em Betim; na Usina Termo Elétrica, em Ibirité; a Eletrotérmica da Petrobrás e Montes Claros, na Usina de Biodiesel. As termoelétricas e as Biodiesel são unidades menores, mas são da Petrobrás também, e a Regata que a nossa maior base. Nesses três lugares o nosso movimento foi basicamente corte e redução. Não dava para trabalhar durante esses 18 dias. A empresa manteve a produção com a equipe de contingência, mas tivemos uma adesão muito grande, principalmente na área operacional, onde chegou a mais de 90% nessas bases. Na área administrativa a adesão foi menor, cerca de 50%. Mas o fato de a nossa adesão ter sido grande na parte de produção, setor mais importante para nós, fez com que a as equipes de contingência ficasse muito reduzida (os fura-greves, supervisores, gerencia etc.).
Acreditamos que se a greve se prolongasse, as unidades iriam ter que negociar uma redução de produção com a gente. Mas não tínhamos condições de fazer uma greve de ocupação e parada de produção porque isso seria um processo de luta mais avançado. Mas como a nossa greve é nacional, em algumas áreas tivemos corte de produção, que foram as plataformas da Bacia de Campos. De corte de produção realmente, no Brasil todo, foi um pouco mais forte nas plataformas de petróleo da Bacia de Campos. Em Macaé, do ponto de vista do corte de produção, foi a mais forte. Aqui em Minas vimos uma adesão muito grande também do setor operacional de todas as gerações, pessoal mais novo, mas antigo. O pessoal participando ativamente dos piquetes nossos diários. Fazíamos sempre piquetes nos três horários de entrada de turno: manhã, tarde e noite. E pela manhã também tem a entrada do pessoal do administrativo. Então fazíamos um ato de convencimento dos pelegos de aderir à greve, participação dos movimentos sociais, de outros sindicatos que foram dá apoio a gente. Do ponto de vista da conscientização, que ficou explicita na adesão da categoria, foi muito importante
LPS – Quantos trabalhadores teve na base
Felipe – Aqui em Minas, contando tudo, geral, deve ter cerca de 1200 trabalhadores, no estado todo.
LPS – Vocês usaram a estratégia de colocar o uniforme para o pessoal passar em cima e não entrara?
Felipe – Isso foi outro ponto bacana dessa greve, porque sem a participação ativa de pelo menos parte da categoria que estava em greve – já que muitos não iam em todas as atividades – mas muitos grevistas iam lá pela manhã e fazíamos esse movimento de constrangimento do pessoal do administrativo, principalmente para aderir a greve. Fazíamos várias ações simbólicas que foi a própria categoria quem sugeriu. Uma delas, foi a mais impactante, colocávamos um corredor de pessoas grevistas e ao final tinham os uniformes de trabalho estendidos no chão. Se eles estivem entrando, estariam pisando nas costas dos trabalhadores que estavam lutando inclusive por eles, mas também, num dado momento, colocamos um “bandeirão” do Brasil, porque a nossa luta nesse ano foi mais abrangente.
LPS – Quais as principais reivindicações da greve
Felipe – Nossa pauta esse ano, que chamamos Pauta pelo Brasil, extrapolava as nossas reivindicações, demandas mais imediatas, corporativas. A nossa preocupação nessa situação política e econômica complicada, principalmente o setor do petróleo está passando, era que as consequências dessa crise já estavam começando a ser repassada dentro da Petrobrás, desde que foi implementado o novo Plano de Negócios da Petrobrás, em Julho.
Esse novo plano, que dizia como a empresa iria agir durante os próximos quatro anos, era uma espécie de ajuste fiscal dentro da Petrobrás. Ele previa a venda de alguns setores de patrimônio da empresa para arrecadar caixa e a redução de investimento da empresa. São dois pontos negativos: primeiro porque a venda de ativas é basicamente a privatização, um fantasma que a gente combate desde a década de 90 e agora, no momento de crise com o endividamento alto da empresa diante da situação de crise mundial do petróleo, ela endividou muito, pois teve que fazer muitos investimentos durante os últimos anos, além de comprar esse petróleo mais de 50% a baixo do que nos últimos anos. Isso gerou uma situação financeira ruim para a Petrobrás. Só que a proposta deles para recuperação é o ajuste neoliberal, é vender patrimônio e reduzir investimentos.
Outra preocupação nossa é que com a redução de investimentos, poderia causar um desastre na cadeia produtiva do petróleo. É a Petrobrás quem puxa esse setor industrial no Brasil, que já é tímido – a nossa indústria já é tímida – mas uma coisa forte é a indústria de petróleo e quem puxa isso é a Petrobrás, responsável por 13% do PIB brasileiro. É pelo investimento estatal da Petrobrás que geramos empregos e riquezas no País. A nossa preocupação com essa redução de investimentos é que teria impacto para o Brasil. Por isso que essa preocupação a princípio era referente à Petrobrás, ao futuro da empresa que queremos, e isso acaba que inflige no futuro nosso, dos trabalhadores, porque outra forma de enxugar a empresa foi justamente a proposta de acordo coletivo para esse anos, de retirada de direitos e arroxo salarial.
LPS – Vocês tiveram campanha salarial esse ano? De quanto foi o reajuste?
Felipe – Nós conseguimos a reposição da inflação do ano, conforme o IPCA, de 9,53%. Mas entendemos que o mais importante, do ponto de vista da categoria petroleira, era manter os nosso direitos conquistados nos últimos anos, eram mais importante, inclusive, do que reajuste salarial. Tanto que nem chegamos a apresentar proposta de reajuste salarial. No meio da negociação nós chegamos a repor a inflação, mas nossa maior preocupação é que não houve retirada de direitos e eles queriam retirar.
LPS – Você acredita que a Petrobrás está sendo atingida por uma política de abandono da industrialização do País?
Felipe – Principalmente no governos Lula estava sendo feita uma retomada muito grande nesse setor, por exemplo, voltamos a ter construções de refinarias depois de mais de 30, 40 anos. A última refinaria havia sido construída na década de 70. E agora, inclusive com os problemas da Lava Jato, é algo bizarro termos aumentado a produção de petróleo nas últimas décadas e não ter construído nenhuma refinaria a mais. E o que acontece? Exportamos petróleo e não temos capacidade, por exemplo, de gerar gasolina para o nosso mercado interno. Mas esse plano de negócio colocava em risco inclusive essas obras. Começamos a temer que eles iriam talvez abandonar alguma obras, como já aconteceu. Fazer o corte de investimentos inclusive em obras que estava em andamento, já tinham sido iniciadas e cancelar. O novo presidente da Petrobrás, que assumiu na metade do ano passado, o Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, ele veio com a missão de fazer o enxugamento, já que a empresa estava numa situação financeira ruim, mas o método dele, como falei, é o método Levy, o método neoliberal.
E muita gente nos questionou já que não queríamos que vendesse a empresa e reduzisse investimento, mas a empresa estava com o maior endividamento de todas as empresas de petróleo do mundo, até porque fomos nós que investimos, descobrimos o pré-sal. Mas essa pauta pelo Brasil a gente também trazia propostas. Elaboramos com acadêmicos, especialistas do setor de petróleo, Dieese, o pessoal da Federação, de trazer algumas alternativas para a recuperação da empresa que não fosse vender, inclusive a preço de banana, já que o mercado agora está em baixa, então iria vender patrimônio muito barato. A nossa opção basicamente é uma questão mais técnica e uma discussão mais economicista, mas no nosso entendimento, o governo teria que buscar outras formas de financiamento, de prolongar dívidas, esse tipo de coisa.
Diante desse momento conjuntural da economia você não pode jogar fora a Petrobrás, uma empresa de função social muito importante, e não é nada com caridade, é geração de emprego, de riqueza, tecnologia, é algo estratégico.
LPS – Teve negociação? Como se deu a relação de vocês com o governo?
Felipe – A dificuldade que nós temos com esse governo é a que toda classe trabalhadora tem. Mesmo sendo o governo que nós defendemos nas últimas eleições, por entender que aquele era o melhor projeto para a categoria e para a Petrobrás, mas vimos que diante da situação da fragilidade política do governo, ele não tem condições nenhuma de responder aos nossos anseios, de algumas coisas que eram ditas na campanha. O que aconteceu? Essa pauta nossa, em defesa da Petrobrás, entregamos em julho e até agora a pauta pelo Brasil não foi respondida pela empresa, muito menos pelo governo. 100 dias depois é que fomos ter a primeira resposta, e foi em greve, durante uma primeira semana toda de greve. Desde o início sabíamos que não dependia da direção da Petrobrás, isso era uma coisa que teríamos que buscar com o governo, mas uma dificuldade que enfrentamos é que dentro do Conselho de Administração da Petrobrás, da diretoria da empresa, tem muita gente jogando do outro lado. A direção da Petrobrás também está em disputa e estamos perdendo essa disputa lá dentro, essa visão de mercado neoliberal estava ganhando e só não avançou mais porque fizemos greve.